sábado, 28 de fevereiro de 2026

Análise de "As Ameixas", poema de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), presente na obra Áspera Seda (2011). O poema é um mosaico da feminilidade, construído através de 14 retratos de mulheres distintas, culminando em uma reflexão metafórica no capítulo final.



Análise de "As Ameixas", poema de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), presente na obra Áspera Seda (2011). O poema é um mosaico da feminilidade, construído através de 14 retratos de mulheres distintas, culminando em uma reflexão metafórica no capítulo final.

1. Estrutura e Estilo

Narrativa Episódica: O poema é dividido em capítulos, tratando cada mulher como uma história única, o que confere à obra um caráter de antologia poética.

Linguagem Variável: O autor alterna entre a singeleza (Camila e Larissa), o realismo cru (Danielle) e o épico social (Corina).

Ritmo: Utiliza rimas ricas e jogos de palavras (ex: "apartados pelo aperto da partida") para ditar a personalidade de cada homenageada.

2. Galeria de Arquétipos

O poema não descreve apenas nomes, mas essências:

Dualidade (Cap. I): Camila e Larissa representam o equilíbrio de opostos (clara/gema, fala/encena).

Resiliência Social (Cap. VI e XIV): Danielle personifica a luta contra o vício e a vida nas ruas, enquanto Corina é a síntese da sobrevivência feminina através das eras, resistindo a guerras, machismo e à invisibilidade do trabalho doméstico.

Complexidade Psicológica (Cap. IV e V): Jennifer e Suellen mostram mulheres que usam "couraças" ou comportamentos ambíguos (abraço/tapa) como mecanismo de defesa ou poder.

Perfeição e Idealização (Cap. X e XI): Ariele é a estética absoluta, enquanto Iara habita o campo dos sonhos e da insatisfação com a realidade.

3. O Simbolismo das "Ameixas" (Cap. XV)

O desfecho revela a metáfora central: as mulheres são as ameixas.

Maturação: Estão na "prateleira" do mundo, tentando amadurecer sob o olhar alheio.

Dualidade Sagrado/Profano: São descritas como "alimento do pecado puro", sugerindo tentação e pureza simultâneas.

Imortalidade: O encontro entre o observador e a "ameixa" (a mulher) gera um instante de eternidade, onde a beleza e a vivência superam a efemeridade do tempo.

Conclusão

O poema é uma celebração da diversidade feminina. Ele humaniza figuras que poderiam ser invisíveis (como a moradora de rua ou a dona de casa) e as eleva ao status de arte. É uma obra sobre a observação atenta do outro.

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O Capítulo XV – Ameixas funciona como a síntese filosófica e o fechamento metafórico de toda a obra. Após apresentar quatorze retratos individuais, o autor utiliza a fruta para universalizar a condição feminina sob a sua ótica.

Aqui estão os pontos centrais da análise:

1. A Metáfora da Prateleira (Vulnerabilidade e Exposição)

As "ameixas na prateleira" simbolizam as mulheres inseridas na sociedade, expostas ao julgamento e ao olhar do outro. Há uma tensão entre o esforço interno para "amadurecer" e a estática de estarem sendo observadas ("olhares atentos").

2. A Polpa Intacta e o Mistério

O verso "Sua polpa, intacta, não foi extraída" sugere uma preservação da essência. Apesar de estarem expostas, há algo de inviolável nelas. O autor reforça a ideia de que, embora ele tenha descrito várias mulheres nos capítulos anteriores, a intimidade profunda (a polpa) permanece protegida.

3. Dualidade: Sedução vs. Pecado

O poema flerta com o simbolismo bíblico:
"Alimentam o pecado puro": Uma contradição intencional (oxímoro). Sugere que o desejo despertado por essas mulheres é natural, quase sagrado, mas ainda assim visto como "pecado".
"Iludem arbustos e seduzem": Indica uma força ativa das mulheres, que não são meros objetos passivos, mas agentes que subvertem o ambiente ao redor.

4. O Contraste Geográfico e Social

"Maneira interiorana entre sete capitais" sugere uma simplicidade ou autenticidade que sobrevive mesmo em ambientes urbanos, caóticos ou sofisticados. É a preservação da raiz em meio à modernidade.

5. A Imortalidade do Instante (O Epílogo)

Os dois últimos versos são os mais poderosos do poema:

"Por um segundo, ambas foram imortais": Refere-se às mulheres (as ameixas).
"Por um segundo, ambos fomos imortais": Refere-se ao encontro entre o poeta (observador) e a mulher (observada).

O autor propõe que a arte e a conexão humana têm o poder de paralisar o tempo. O ato de observar e descrever aquelas mulheres as retirou da finitude cotidiana, tornando-as eternas através da poesia.

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Capítulo I - Claras e Gemas (Milas e Laris)

Camila é clara,
Larissa é gema,
Larissa fala,
Camila encena,

Camila rala,
Larissa Pena.
Larissa é novela,
Camila é cinema,

Camila é novena,
Larissa é rosário,
Larissa é peixes,
Camila aquário.

Camila agita,
Larissa sacode,
Larissa grita,
Camila acode,

Camila é siga,
Larissa é pare,
Larissa é Mila,
Camila é Lari.


Capítulo II - Bianca

Resistência movida à paixão,
Paixão pelo que a faz contente,
Contentamento que a satisfaz.

Para ela aquele objeto oval,
Que uns chamam de bola,
Não é, nem será banal.

A prática traz precisão,
Deixa de ser esporte
Exercício ou distração,
Transmutando-se em
Colírio.


Capítulo III - Samila

Silêncio, identificação,
Sorriso, aproximação.

Intermináveis emoções
Podem residir dentro
De um simples: Oi !

Bastam três vogais
E Três consoantes,
Para seu nome.

Comportadíssima
Ao se incorporar a fila,
Incorporei-me a ela.
Samila !


Capítulo IV - Jennifer

Cinicamente certeira e sincera,
Simpaticamente severa e sádica.

O que aconselho ?
Não afronte, concorde.

Vem normalmente
Com um abraço e um tapa,
Ou um tapa, um abraço e um tapa.

É ou não é uma belezura ?

Quando parte
Deixa seus partidos apertados
E apartados pelo aperto da partida.

Mas, doa a quem doer,
Com sua palma,
Ela delicadamente doa
De bom grado mimos e hematomas.

Nada que seu charme não cure.


Capítulo V - Suellen

Furiosa comigo (seu interlocutor),
Estranho, como ela gosta.
Gosta repelindo,
Gosta afastando a causa de seu gosto.

A conseqüência é o encaramento,
Encara sem dó.
Encarnando uma couraça
Para se proteger,
Do desgosto que possam injetar nela.

Talvez esse afastamento,
Seja a maior prova irrefutável,
Vista, revista e certificada,
De que a distância é segura;
A margem ameniza.

E distanciada de seu inspirador,
Ela pode gostar.


Capítulo VI - Danielle

Seu hálito indicava 97%
De álcool no sangue,
Completamente embriagada,
Mas alegre,
Dançava gritando
E celebrando sua liberdade.

Tinha herdado dois terrenos
De seu falecido pai,
Morava na rua,
Não quis herdar ausência.

Desapreciava comida japonesa,
Preferia pinga,
Tinha largado a heroína,
Dois anos limpa,
As picadas ainda
Se salientavam no braço.

O que marcava expressivamente
Seus passos e sua honestidade,
Era o trago de cachaça
E o traço de amizade.


Capítulo VII - Rose

Tempestuosamente
Firme em sua calmaria,
Tranqüilidade aquecida.

Quem ousaria defender
A amabilidade
Como geração de energia ?
Ela ousa !

Defende e desfere
Suas particularidades.
Recita citações
Reinventando o que cita
E soa tão original.

Originalidade permanente.
Fizemos um trato,
Ofereço a carona
E ela sua companhia.


Capítulo VIII - Quézia

Maquiada.
Por baixo de seu gloss,
Blush, rímel e delineador,
Está a mais plena graça.

Permeada de múltiplas
Inconsistências,
Ela consegue consistir.

Tem conteúdo,
E o que contém nela
Me agrada demais.

Mas não se resume ao agrado,
É o excesso que conta.
O exagero em abundância,
A redundância.

Demasiadamente
Ela me entusiasma demais.
E sua demasia muito me anima.


Capítulo IX - Sara (Ao surgir tinha ido)

Rangeu o taco,
Trepidou o piso.
Fingi não ter ouvido,
Mas ela era e estava.

Atrás, nas minhas costas,
Quietinha.
Respiração semi-ofegante,
Ela se continha.

Aguardei-a,
Ela tinha seu próprio andamento.
É maravilhoso repassar,
A sensação de ter fingido.

Guardei-a comigo.

Naquele abreviado baque,
Assustou-me.
Deixei-me assustar
E ao surgir tinha ido.


Capítulo X - Ariele

Finalizada pelo aperfeiçoamento,
Preenchida com o necessário,
Superioridade declarada.

Níveis de porcentagem
Alcançando o máximo por cento.

Pós-perfeição,
Vitamina energética,
Sendo energizada.

Ela está terminada, completa.
Arrematada, aprontada,
concluída, findada.

Decorada com um brilho inegável,
Esculpida em perfeita pele,
Seis letras delimitam a ilimitável,
A R I E L E.


Capítulo XI - Iara

Queria muito
Ter partilhado
De seus sonhos.

Sonhos muitas vezes
São fortificantes,
Agitam nossas almas.
Por isso faço questão
De sonhar acordado.

Me desligar de uma realidade
Que não me satisfaz,
Mergulhando em desprendimentos
Que me trazem satisfação.

Às vezes me chamam de delirante,
Para alguns isso
Pode parecer insignificante,
Para mim isso parece essencial,
Definitivo e acertado.

Ainda não tive o prazer
De sonhar contigo dormindo,
Mas confesso,
Já sonhei contigo acordado.


Capítulo XII - Giovana

Criativa, compositora,
Elabora suas próprias canções.

Dialetos variados
Lhe servem de referência,
Não compreendo
Mas sou compreendido.

Caricatura de cerâmica
Sapatinhos ortopédicos
Perninhas delgadas
Vestimentas minúsculas.

Sua capacidade se destaca,
Sua meiguice se aflora,
Melodicamente equipada,
Pode equiparar-se
Às melhores entre as maiores.

Aprendeu francês vendo filmes,
Não compreende com clareza,
Mas sem intercâmbios,
Sua pronúncia é francesa.


Capítulo XIII - Andressa

Brincalhona em brincadeiras
Descoladas mesmo.
Brinca sem se preocupar
Com a modalidade
Ou técnica utilizada.

De nenhuma maneira histérica,
Não detém a histeria
Como característica.

Sobre tudo agradável,
Carinhosa, cuidadosa, precavida.
Não alimenta afinidade com cálculos,
Proporções ou raciocínio-lógico.

Alimenta uma facilidade indiscutível
Para convivência,
Motiva com um efêmero toque
Que a tudo envolve.

Duvido que os prodígios
Da ciência matemática,
Resolveriam seus problemas,
Melhor do que ela os resolve.

Pois ela resolve !


Capítulo XIV - Corina

Bravura denominada,
Homônima a Corina.
Sobreviveu a dois duelos mundiais,
Sobreviveu às perseguições
Políticas, religiosas e culturais.
Sobreviveu à escassez,
Aos racionamentos.
Sobreviveu a quatro maridos,
Nove filhos e dezesseis netos.
Viveu na Europa, África,
Ásia, Oceania, América
E no Continente Polar.
Sobreviveu à bestialidade militar,
Sobreviveu à bestialidade estatal,
Sobreviveu à bestialidade popular.
À macheza dos machistas,
À opressão e à ameaça nuclear.
Sobreviveu ao mercado de laboro,
À jornada quíntupla,
Aos assédios morais
E à forçosa vulgaridade sexual.
Intitulada Dona dele,
Sobreviveu ao lar.
Às milhares de tarefas
Não-remuneradas
E à máquina de lavar.
Um Salve !
À Brava Corina.


Capítulo XV - Ameixas

As ameixas, na prateleira, reluzem.
Os olhares atentos fitam seu porte ?

Fazem o possível para amadurar,
Sua polpa, intacta, não foi extraída.

Ameixas que iludem arbustos e seduzem,
Ameixas que alimentam o pecado puro.

Maneira interiorana entre sete capitais.
Esperando, "distraídas", a sobremesa.

Por um segundo, ambas foram imortais.
Por um segundo, ambos fomos imortais.

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(Áspera Seda: Volume Único - 2011)

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