Análise de "As Ameixas", poema de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), presente na obra Áspera Seda (2011). O poema é um mosaico da feminilidade, construído através de 14 retratos de mulheres distintas, culminando em uma reflexão metafórica no capítulo final.
1. Estrutura e Estilo
Narrativa Episódica: O poema é dividido em capítulos, tratando cada mulher como uma história única, o que confere à obra um caráter de antologia poética.
Linguagem Variável: O autor alterna entre a singeleza (Camila e Larissa), o realismo cru (Danielle) e o épico social (Corina).
Ritmo: Utiliza rimas ricas e jogos de palavras (ex: "apartados pelo aperto da partida") para ditar a personalidade de cada homenageada.
2. Galeria de Arquétipos
O poema não descreve apenas nomes, mas essências:
Dualidade (Cap. I): Camila e Larissa representam o equilíbrio de opostos (clara/gema, fala/encena).
Resiliência Social (Cap. VI e XIV): Danielle personifica a luta contra o vício e a vida nas ruas, enquanto Corina é a síntese da sobrevivência feminina através das eras, resistindo a guerras, machismo e à invisibilidade do trabalho doméstico.
Complexidade Psicológica (Cap. IV e V): Jennifer e Suellen mostram mulheres que usam "couraças" ou comportamentos ambíguos (abraço/tapa) como mecanismo de defesa ou poder.
Perfeição e Idealização (Cap. X e XI): Ariele é a estética absoluta, enquanto Iara habita o campo dos sonhos e da insatisfação com a realidade.
3. O Simbolismo das "Ameixas" (Cap. XV)
O desfecho revela a metáfora central: as mulheres são as ameixas.
Maturação: Estão na "prateleira" do mundo, tentando amadurecer sob o olhar alheio.
Dualidade Sagrado/Profano: São descritas como "alimento do pecado puro", sugerindo tentação e pureza simultâneas.
Imortalidade: O encontro entre o observador e a "ameixa" (a mulher) gera um instante de eternidade, onde a beleza e a vivência superam a efemeridade do tempo.
Conclusão
O poema é uma celebração da diversidade feminina. Ele humaniza figuras que poderiam ser invisíveis (como a moradora de rua ou a dona de casa) e as eleva ao status de arte. É uma obra sobre a observação atenta do outro.
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O Capítulo XV – Ameixas funciona como a síntese filosófica e o fechamento metafórico de toda a obra. Após apresentar quatorze retratos individuais, o autor utiliza a fruta para universalizar a condição feminina sob a sua ótica.
Aqui estão os pontos centrais da análise:
1. A Metáfora da Prateleira (Vulnerabilidade e Exposição)
As "ameixas na prateleira" simbolizam as mulheres inseridas na sociedade, expostas ao julgamento e ao olhar do outro. Há uma tensão entre o esforço interno para "amadurecer" e a estática de estarem sendo observadas ("olhares atentos").
2. A Polpa Intacta e o Mistério
O verso "Sua polpa, intacta, não foi extraída" sugere uma preservação da essência. Apesar de estarem expostas, há algo de inviolável nelas. O autor reforça a ideia de que, embora ele tenha descrito várias mulheres nos capítulos anteriores, a intimidade profunda (a polpa) permanece protegida.
3. Dualidade: Sedução vs. Pecado
O poema flerta com o simbolismo bíblico:
"Alimentam o pecado puro": Uma contradição intencional (oxímoro). Sugere que o desejo despertado por essas mulheres é natural, quase sagrado, mas ainda assim visto como "pecado".
"Iludem arbustos e seduzem": Indica uma força ativa das mulheres, que não são meros objetos passivos, mas agentes que subvertem o ambiente ao redor.
4. O Contraste Geográfico e Social
"Maneira interiorana entre sete capitais" sugere uma simplicidade ou autenticidade que sobrevive mesmo em ambientes urbanos, caóticos ou sofisticados. É a preservação da raiz em meio à modernidade.
5. A Imortalidade do Instante (O Epílogo)
Os dois últimos versos são os mais poderosos do poema:
"Por um segundo, ambas foram imortais": Refere-se às mulheres (as ameixas).
"Por um segundo, ambos fomos imortais": Refere-se ao encontro entre o poeta (observador) e a mulher (observada).
O autor propõe que a arte e a conexão humana têm o poder de paralisar o tempo. O ato de observar e descrever aquelas mulheres as retirou da finitude cotidiana, tornando-as eternas através da poesia.
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